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fevereiro 21, 2010 / cassiomarques

Porque eu desisti de manter o projeto de tradução dos RailsGuides

No ano passado eu tive a idéia de traduzir os Rails Guides para Língua Portuguesa. Para isso contei com a ajuda de diversas pessoas da comunidade Ruby/Rails brasileira e fomos os primeiros (e até onde sei os únicos) a conseguir concluir a tradução e colocar um site com os guias traduzidos no ar. Nenhum dos demais projetos de tradução obteve o mesmo nível de sucesso que nós obtivemos. Foi bem legal trabalhar com tanta gente no projeto e, junto com o Daniel Lopes gerenciar as traduções, revisões, atualizar o github, tirar dúvidas do pessoal e tudo mais.

Na época, minha motivação para tocar esse projeto não era simplesmente fornecer uma versão em Português para os desenvolvedores brasileiros que não dominam o Inglês. Eu queria difundir o Ruby e o Rails no Brasil de todas as formas possíveis, queria que se tornassem populares, a ponto de facilitar sua introdução nas empresas. Na época eu achei que aumentando a documentação existente em Português, mais pessoas iriam falar sobre o Rails e ele deixaria aos poucos de ser algo tão “exotérico”. Acreditem, ainda hoje converso com pessoas que possuem empresas de desenvolvimento de software, com produtos de sucesso, que não conhecem o Ruby e nem o Rails. Para quem trabalha com essas tecnologias diariamente isso soa até estranho, mas realmente esse tipo de situação ainda acontece.

Eu sempre fui um defensor da idéia de que saber inglês, pelo menos para leitura, é pré-requisito para qualquer um que almeje se tornar um bom programador. Me desculpem, mas essa é a verdade. Se você for esperar que tudo que é criado em língua inglesa seja traduzido para só então aprender, estará sempre vários passos atrás. Mas ainda assim achei que traduzir a documentação oficial do Rails, seguindo o mesmo padrão do projeto original em inglês e disponibilizar para a comunidade brasileira seria um passo importante para popularizar minhas tecnologias prediletas no Brasil.

Com o lançamento do Rails 3.0 nos vimos diante da grande tarefa de atualizar os guias, uma vez que houve diversas mudanças no framework. Analisando friamente os resultados obtidos com o nosso projeto eu tristemente cheguei à conclusão de que ele foi mais maléfico do que benéfico para o mercado de Ruby e Rails no Brasil. A partir do momento em que se cria documentação em Português, a tecnologia se torna acessível para um número bem maior de profissionais e, infelizmente, na nossa profissão a quantidade é inversamente proporcional à qualidade. Por favor, eu não quero parecer elitista, não me entendam mal. Mas o que vem acontecendo é uma diminuição drástica na qualidade dos profissionais que começaram a trabalhar com Rails no Brasil.

É claro que a existência de documentação em português não é o único motivo para que isso ocorra, a própria popularização natural do Ruby no país tem contribuído para isso. Não vou enumerar todos os pontos através dos quais eu cheguei a estas conclusões. Quem faz parte da comunidade de forma ativa e trabalha com essas tecnologias já há um certo tempo sabe do que eu estou falando. Acho que o Ruby e o Rails já estão suficientemente populares em nosso país e chegou um momento onde os males de manter projetos de tradução como esse superam os benefícios que podem ser alcançados.

Bom, essa é somente minha opinião, por favor não me levem a sério demais :-)

Caso alguém tenha interesse em manter o projeto, acredito que a forma mais simples seja fazer um fork no Github, entrar em contato com quem já estava trabalhando nas traduções (os contatos estão no Wiki do projeto) e se organizar.

12 Comentários

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  1. Jônatas Paganini / fev 21 2010 1:04 pm

    Gostei!

  2. Marcos V Bohrer / fev 21 2010 4:50 pm

    Concordo plenamente com a sua atitude!

  3. @diegorv / fev 21 2010 6:16 pm

    Sem querer parecer “elitista” mas também concordo com vc e inclusive já conversamos sobre isso..

    O problema é que muitos começam em algo novo sem nem tentar aprender a mentalidade em relação as novas coisas..

    Mas não acho que a doc em portugues influenciou muito nisso, isso é problema de brasileiro mesmo… quer fazer as coisas sempre pelo caminho mais fácil mesmo que o resultado seja uma merda!

    E eu sempre defendi que saber inglês é o básico, quem quer mexer com tecnologia o mínimo é saber ler em inglês… o contrario é inaceitável!

    Vejo pessoas que se dizem “Programadores Ror”, escrevendo código como se estivessem no asp ou no php… chega a ser triste.

    Acho que o grande problema da nossa comunidade é a falta de mentalidade em buscar evoluir como profissional.

    ;-)

  4. Rafael Rosa / fev 21 2010 9:17 pm

    Salve,

    Posso até concordar que a qualidade dos programadores caiu, mas não vejo motivo algum para parar de fazer as traduções. Se não for um problema quero ajudar com o novo processo de tradução e sei que haverá gente na comunidade interessada em fazê-lo.

    É uma pena que os mais experiêntes da comunidade estejam se afastando dos mais novos. Isso definitivamente não vai ajudar a criar uma nova geração saudável, pelo contrário.

    Abraço

    • cassiomarques / fev 21 2010 10:08 pm

      Olá Rafael,

      Existem outras formas de se manter próximo daqueles que estão começando:

      – Responder tópicos nas listas
      – Ajudar quem pede ajuda via email/IM
      – Manter um blog
      – Ser acessível durante encontros e eventos
      – Participar de reuniões como as do ValeRuby, Guru-sp, etc
      – Palestrar
      – etc

      Por outro lado, vejo que aprender inglês é tão importante quando aprender a sintaxe e os macetes do Ruby (ou de qualquer outra linguagem). Por isso mesmo acredito que a existência de literatura em inglês seja um incentivo para que ocorra estudo nesse sentido, coloborando assim para criar uma nova geração saudável, parafraseando você :)

      Quanto a continuar com as traduções, acredito que você seja hoje a pessoa mais indicada para continuar com o projeto, e desejo DE VERDADE toda a sorte para você e para os outros membros da comunidade que forem ajudar.

      Grande abraço!

  5. Rafael Silva / mar 3 2010 11:37 am

    Concordo plenamente, dá para perceber nos fórums das comunidades. Parece que os programadores “Ctrl+C” e “Ctrl+V” estão entrando nos trilhos.

    Para iniciantes existem inúmeros blogs e ótimos livros em português, quando precisar ir mais longe, não tem como fugir tem de ler inglês.

    Em questão de ajudar os mais novos na linguagens, eu como frequentador de algumas comunidades vejo que os usuários ativos se empenham bastante em ajuda-los, mas parece que alguns destes usuários não se contentam com a ajuda, eles querem o código pronto (por isso digo ctrl+c e ctrl+v) e é ai que a qualidade da comunidade cai.

  6. andrerocker / mar 27 2010 11:47 pm

    Não me leve a mal mas na minha opnião não tem nenhum sentido atrelar a tradução de material a baixa qualidade de profissionais, pois eles existem em todos os lugares, inclusive em paises em que a ligua mãe éo inglês.

    O que precisamos por aqui alem das criticas é claro são: mais iniciativas, projetos e ideias.

    • cassiomarques / mar 28 2010 3:42 am

      A tradução não é a causa principal da baixa qualidade de profissionais, mas ela *colabora* para que esta baixa qualidade exista, uma vez que torna “mais largo” o funil que naturalmente filtra a qualidade dos profissionais, ou seja, o mercado.

  7. Norberto / abr 2 2010 9:08 pm

    Concordo com alguns aspectos, quem quer ser programador RoR, com certeza é obrigatório saber inglês e não precisa ninguém te dizer isso, intuitivamente vc perceberá isso por inúmeras razões uma delas é que ruby é uma linguagem legível e a convenção é o inglês e se vc for programar misturado com português seu código fica tosco demais, e RoR não serve para programadores que não tenham o perfil de um agente de mudanças, nós da área computacional temos de ter em mente de forma ativa que nosso ramo está em constante evolução, e Ruby pra mim é uma evolução das linguagens de programação, e se outros programadores de outras linguagens pretendem migrar para RoR, precisam primeiramente entender o excelente conceito de se desenvolver em Rails, e realmente tem muita gente de outras linguagens vendo conteúdo errado sobre Rails na internet e tirando conclusões equivocadas do que é desenvolver em Rails por estar em português, claro que isso como o Cássio disse não é o principal motivo, mas vai lá um João Programador da vida coloca em seu blog algo errado sobre Rails e quem está começando vai lá procura aprender pelo blog de forma errada, já vi muito isso. O Rails Guides pra mim é um ponto de referência para te guiar no Rails, e deve ser divulgado cada vez mais, pra quem queira começar a entrar no mundo Rails, e que o use como meio de estudo, e se quiser se tornar bom nessa tecnologia faça como eu, aprenda com quem é mestre no assunto. Sou o aluno do Daniel Lopes na eGenial.

  8. Romulo / maio 25 2010 4:08 pm

    Eu acho que bons programadores são pessoas que se importam com o que fazem e correm atrás. Saber inglês é essencial, assim como saber latin era essencial no mundo acadêmico há um tempo não tão distante assim. Se você opta por fazer a tradução da documentação, é óbvio que você está visando o público dos programadores medianos a ruins, pois, por inferência, bons programadores já sabem inglês e provavelmente já ouviram falar da tecnologia. Ainda, o próprio processo de evangelização prega que você pode fazer mais coisas de um modo mais fácil e rápido do que o usual em outros ambientes de desenvolvimento. Ora, se a produtividade de bons programadores é 10 vezes superior ao de um programador ruim (No Silver Bullets, Fred Brooks), o apelo de uma ferramenta para diminuir essa distância é mais interessante para aqueles que estão no lado mais fraco do espectro. Afinal, bons programadores fazem suas próprias ferramentas para facilitar seus trabalhos, e embora não precisem de um framework pronto para sairem da inércia, ter um projeto maduro e mantido por outrem diminui o tempo de preparação em novos projetos (e muitas horas de manutenção em estágios mais avançados). Joel Spolski já disse em um de seus artigos[1] que toda abstração é leaky; elas não foram feitas para você não precisar aprender alguma tecnologia, mas sim tornar os cantos pontudos mais suaves para sua canela, lidando com problemas frequentes de uma determinada abordagem (no caso, RoR tenta simplificar a produção de frontend webapps). Mas toda abstração vaza em algum lugar. Se a abstração oculta uma certa complexidade, você não irá conseguir utilizá-la quando precisar (vide o famoso problema de construir queries complexas com ORMs – normalmente os frameworks acabam criando uma pseudo DSL mais monstruosa do que se tivesse feito a SQL manualmente).

    Sobre o comentário da ignorância das empresas com relação ao RoR, acredito que seja pretensão sua achar que qualquer tecnologia nova é tão importante a ponto de que todos devam saber sobre ela. Entendo que a hype sobre o RoR é muito forte, mas para empresas que não têm perfil inovador (e acredite, a maioria das empresas não têm, mesmo que a equipe de marketing diga veementemente do contrário), elas não poderiam se importar menos. Para que gastar carbono aprendendo uma tecnologia que não agregará valor ao produto, ou que não o fará com custo razoável? Isso sem contar o perfil de mercado da empresa: umas são software houses, outras tem um ou dois produtos, outras são agência de webdesign que fazem “sisteminhas” etc etc. Cada perfil tem seus problemas e necessidades, e não existem panaceias — cada ferramenta resolve seu tipo de problema.

    [1] http://www.joelonsoftware.com/articles/LeakyAbstractions.html

  9. Daniel Chaves / fev 21 2013 11:32 pm

    Cara… Perdão por ressuscitar o post após tanto tempo, mas preciso dizer que entendo seus motivos, mas não concordo… O aumento de programadores “sem qualidade” em uma linguagem é um efeito colateral do aumento de sua popularidade. Até porque ler em inglês não é certificado de competência em desenvolvimento, tampouco não saber o idioma é sinônimo de desinteresse ou desleixo, porque podemos estar tratando com iniciantes no mundo da tecnologia que talvez se interessem por RoR, mas fatalmente escolherão outras linguagens com documentação mais acessível em português.

    O post soa bastante como “Cara, isso é genial, vamos fazer um projeto!”, e logo depois “Xii, começou a entrar Zé Ruela, vamos parar pra manter o nível”. Se todos continuarem com este pensamento, a estranheza com relação ao RoR será eterna.

    P.S.: Falo inglês, trabalho há algum tempo com RoR, infelizmente não tenho tempo nem equipe para levar um projeto destes adiante. Mas com certeza gostaria.

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